Em 8 de junho de 2026, o Ministério da Saúde suspendeu temporariamente a aplicação da Butantan-DV, a vacina contra a dengue desenvolvida pelo Instituto Butantan. A decisão veio depois que o sistema de monitoramento identificou casos graves em pessoas vacinadas. Esses casos estão sendo investigados pelo ministério, pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), pelo Butantan e por especialistas.
Uma notícia como essa costuma assustar. Mas a suspensão, por si só, não significa que a vacina seja perigosa. Significa que o sistema que vigia a segurança das vacinas detectou algo que precisa ser esclarecido, e agiu.
Até o anúncio, pouco mais de 500 mil pessoas tinham recebido a vacina. Cerca de 3,7 mil delas (0,7%) tiveram sintomas parecidos com os da dengue, em geral leves. Outras 42 (0,008%, ou cerca de 8 em cada 100 mil vacinados) apresentaram sinais de alarme, como dor abdominal intensa, vômitos persistentes e sangramentos. Três foram hospitalizadas e duas morreram.
Até o momento, não há comprovação de que esses casos tenham sido causados pela vacina. A investigação analisa a história de cada paciente: doenças que já tinha, remédios que usava e a forma como a vacina foi aplicada, entre outros pontos. Enquanto isso não for esclarecido, as aplicações ficam suspensas. O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, classificou a decisão como uma “ação de precaução”. Não há prazo para a conclusão, e as doses seguem guardadas na rede do SUS.
Um cuidado praticado com todas as vacinas
Antes de chegar à população, toda vacina passa por estudos com milhares de voluntários. Mesmo assim, eventos muito raros, que acontecem em poucas pessoas a cada centenas de milhares, só podem aparecer quando a vacina passa a ser aplicada em larga escala. E é exatamente essa etapa de acompanhamento que acontece quando uma vacina é aprovada pela Anvisa e liberada para uso na população em geral – fase quatro de acompanhamento.
Do ponto de vista da segurança sanitária, esse cuidado faz parte da farmacovigilância, um conjunto de práticas e sistemas que monitoram continuamente a segurança de medicamentos e vacinas após sua aprovação e distribuição. Ou seja: a aprovação de um imunizante não encerra o processo de avaliação.
Dessa forma, quando profissionais de saúde ou pacientes notificam um evento adverso, as autoridades investigam se há relação com o produto. No Brasil, este trabalho envolve o Ministério da Saúde e a Anvisa, que podem interromper as aplicações para investigar a associação entre o efeito grave e a vacinação. Na Europa, cabe à Agência Europeia de Medicamentos (EMA). A Organização Mundial da Saúde (OMS) reúne notificações de vários países, o que ajuda a identificar sinais que um único país talvez não percebesse.
Importante lembrar: suspender não é o mesmo que retirar do mercado. A retirada definitiva acontece quando há evidência sólida de risco. A suspensão é uma pausa enquanto a investigação avança. Ao fim dela, a vacina pode voltar a ser usada normalmente, voltar com restrições (para um público ou uma região específica, por exemplo) ou deixar de ser usada.
E a Qdenga?
A outra vacina contra a dengue utilizada desde 2024 no Brasil e há mais tempo em outros países, a Qdenga, do Laboratório Takeda, não foi afetada e continua sendo aplicada no SUS em adolescentes. Em setembro de 2026, calcula-se que mais de 8 milhões de adolescentes já foram vacinados com ela. A Qdenga foi aprovada no Brasil em 2023 e segue em monitoramento, como acontece com todos os imunizantes.
Em tempos de hesitação vacinal, todos esses pontos devem ser esclarecidos de forma clara pelas autoridades, a fim de não gerar receio numa população que ganha, e muito, com todo o Calendário Nacional de Imunizações.
“Trata-se de uma ação de precaução que deve sempre orientar quem respeita a vida e quem respeita a ciência, ainda mais quando estamos falando de vacinação”, destacou Alexandre Padilha, ministro da Saúde.
E quem já tomou a Butantan-DV?
O imunizante do Butantan começou a ser usado em 2026 em a profissionais de saúde da Atenção Primária à Saúde. Em algumas cidades, como Botucatu (SP), Maranguape (CE), Nova Lima (MG) e da região de Araguaína (TO), também foi aplicada na população de 15 a 49 anos. . À época do anúncio, o Ministério da Saúde orientou os vacinados com a Butantan-DV que observasse o próprio estado de saúde por 21 dias após a aplicação. Como as aplicações foram interrompidas em junho, este período já passou para todos.
Ainda assim, vale conhecer os sintomas que também são sinais de alarme da própria dengue: febre, dor abdominal intensa e contínua, vômitos persistentes, sangramentos, tontura, sonolência excessiva, sinais de desidratação ou piora do estado geral, deve-se procurar atendimento médico imediatamente. O Ministério da Saúde salienta que a medida não invalida a eficácia da vacina nem altera as evidências de proteção observadas até o momento. “Quem já foi imunizado permanece protegido e a vigilância epidemiológica continua a acompanhar a população vacinada”, disse a pasta, em nota.
Por que falar disso com clareza
Informar com transparência sobre casos como esses é fundamental para que a dúvida sobre uma vacina específica não se transforme em desconfiança sobre todas as outras. De acordo com a OMS, as vacinas salvaram 154 milhões de vidas nos últimos 50 anos. No Brasil, elas ajudaram a erradicar a poliomielite (paralisia infantil) e a rubéola, além de controlar a pandemia da covid-19.
Parar para investigar é justamente o que permite que confiemos nas vacinas que se mantém em uso: é sinal de que alguém está vigiando.
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