Falta de saneamento básico cria terreno fértil para a dengue

Carência de serviços básicos de água e esgoto agrava a proliferação do vetor, sobrecarrega o sistema de saúde e amplia desigualdades sociais
Luiza Adorna
Publicado em 23/02/2026 - 15:00

Embora o Brasil tenha registrado queda expressiva no número de casos de dengue em 2025, em comparação com o ano anterior — que bateu recorde de toda a série histórica —, o país já contabilizou quase 1,5 milhão de infecções neste primeiro semestre. Os números servem de alerta para a continuidade das ações de prevenção, visto que o combate ao mosquito Aedes aegypti vai além do uso de repelentes e vacinas, mas depende de políticas públicas estruturadas.

Sem saneamento, a doença avança

Segundo dados do Instituto Trata Brasil, cerca de 100 milhões de pessoas não têm rede de esgoto e 35 milhões vivem sem água encanada no Brasil. Essa é uma combinação perigosa, porque, sem o saneamento adequado, a população armazena água de maneira irregular e pode promover o acúmulo de água parada, a presença de esgoto a céu aberto e de áreas alagadas, favorecendo a propagação de mosquitos.

Com apenas cinco milímetros, o Aedes aegypti transmite, além da dengue, o zika vírus, a febre amarela urbana e a chikungunya. Para combatê-lo, o saneamento básico torna-se um dos principais pilares na prevenção de doenças infectocontagiosas. Afinal, a ausência de infraestrutura sanitária agrava a proliferação do vetor, aumentando a circulação das enfermidades, sobrecarregando o sistema de saúde e ampliando as desigualdades sociais.

Como o risco da dengue se concentra onde serviços públicos que garantem condições adequadas de higiene são precários, ciclos de pobreza e exclusão social acabam se perpetuando. De acordo com o ranking do Instituto Trata Brasil, 16 dos 20 municípios com melhores condições estão no Sul e no Sudeste. Enquanto isso, 12 dos 20 piores se localizam no Norte e no Nordeste do país. Macapá, no Amapá, teve a pior avaliação.

Ainda conforme o Instituto, a melhoria do saneamento pode impulsionar investimentos, movimentar o setor imobiliário, gerar empregos, potencializar a renda da população, reduzir a incidência de doenças, revigorar o desempenho escolar de crianças e adolescentes e aumentar a produtividade dos trabalhadores. Com esse avanço, outras estratégias de prevenção poderiam ser mais eficazes.

Onde a vacina entra nessa história?

A  vacinação contra a dengue entrou no Calendário Nacional de Vacinação do Brasil, com  foco em crianças e adolescentes entre 10 e 14 anos de localidades mapeadas pelo Ministério da Saúde com alta incidência da doença. A disponibilidade limitada de doses impediu, num primeiro momento, a expansão do esquema vacinal. 

Mas isso mudou em 2026. Com a assinatura da  Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), no fim de novembro de 2025, do Termo de Compromisso para viabilizar a vacina da dengue produzida pelo Instituto Butantan, foi possível produzir e distribuir a vacina contra dengue, dose única, 100% nacional. Em janeiro de 2026, a vacinação para um público mais abrangente – de 15 a 59 anos – foi iniciada em municípios-piloto e será expandida de forma faseada, segundo programação do Ministério da Saúde. Crianças de 10-14 anos, importante ressaltar, continuam sendo vacinadas com o esquema em 2 doses introduzida em 2025.  

O que fica no radar?

O avanço proporcionado pelo sucesso do desenvolvimento da vacina dose única contra a doença coloca no horizonte a área na qual não se tem, ainda, nenhuma ferramenta disponível no combate à dengue: um tratamento específico. 

Atualmente, o tratamento da dengue é focado apenas no suporte ao paciente de acordo com o nível de gravidade que apresenta, sem a possibilidade de atuar diretamente tanto no desenvolvimento da doença, quanto na modulação da sua gravidade. É nesse contexto que iniciativas como a Drugs for Neglected Diseases Initiative (DNDi), que busca concatenar esforços e financiamentos para pesquisas de tratamentos específicos contra doenças negligenciadas, como a dengue, atuam. Uma nova fronteira que se mostra tão possível quanto transformadora. 

Referências:

https://www.gov.br/fundacentro/pt-br/comunicacao/noticias/noticias/2016/4/falta-de-saneamento-basico-e-considerado-como-um-dos-viloes-da-proliferacao-de-aedes-aegypti

https://oglobo.globo.com/saude/noticia/2025/07/17/dengue-brasil-tem-queda-de-762percent-nos-casos-no-primeiro-semestre-de-2025.ghtml

https://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2023/03/20/saneamento-basico-100-milhoes-de-pessoas-nao-tem-rede-de-esgoto-e-falta-agua-potavel-para-35-milhoes.ghtml https://tratabrasil.org.br/o-que-e-saneamento-basico/

https://agenciabrasil.ebc.com.br/saude/noticia/2025-06/dengue-vacina-do-butantan-deve-estar-disponivel-no-inicio-de-2026

https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/noticias-anvisa/2025/anvisa-conclui-analise-e-assina-compromisso-com-butantan-para-registro-de-vacina-contra-a-dengue