Em uma pesquisa rápida no Google, o tópico “ovos de tênia para emagrecer” oferece milhares de resultados. E eles podem variar entre tentativas legítimas e chanceladas de comprovar a sua ineficácia ou o extremo oposto: ofertas de vendas do produto para que você consiga adquirir o famigerado “corpo de verão”.
Mas antes de conferir se essa técnica é ou não é eficaz e segura, é preciso dar alguns passos para trás e entender o que são os ovos de tênia e como e quando surgiu esse uso aplicado para fins de emagrecimento. Continue lendo para entender mais!
Um parasita solitário
A tênia é, antes de mais nada, um verme parasita. Os seres humanos são os hospedeiros definitivos dessa espécie cujo nome científico é Taenia Saginata ou Solium. Seu paradeiro final é o intestino delgado, onde se fixa por uma estrutura chamada escólex. Esse verme em estágio adulto possui um comprimento em torno de 5 metros, (mas pode chegar até 25 metros), e seu aspecto é fino como uma fita.
Sua presença pode causar duas doenças muito importantes: a teníase e a cisticercose. A primeira se dá quando há a presença de uma tênia já adulta no intestino, e que é liberado em suas fezes pedaços desse verme, os “proglotes”. Nesses pedaços, há ovos do parasita. Cada cápsula de ovo contém embriões, chamados de oncosferas, que podem ser ingeridos por animais herbívoros, como bois, porcos ou outros animais e são liberados no ambiente. Uma vez dentro do organismo, eles implodem em larvas, os chamados cisticercos.
É aí que a disseminação começa. Os cisticercos se espalham por todo o sistema dos animais e se instalam em seus tecidos. Mas justamente esses tecidos poderão ser servidos depois em seu prato, afinal, eles podem fazer parte dos pedaços de carne em seu prato. Ao consumir essa carne crua ou mal passada, o homem se infecta e essa é a teníase. Se o indivíduo consumir os cisticercos diretamente, sem um animal no meio, e se forem as larvas do tipo Solium, então ele tem a cisticercose.
Uma vez dentro do corpo humano, eles se instalam no intestino delgado e crescem, se tornando vermes adultos. Esses vermes podem se alongar e viver por vários anos, liberando ovos nas fezes do hospedeiro. Por isso é tão importante cozinhar bem a carne e manter hábitos de higiene para prevenir a infecção, além de, é claro, saneamento básico para a população.
Mas afinal, emagrece?
Quando o assunto é emagrecimento, é sempre importante lembrar que não há receita milagrosa. Portanto, ao ler uma notícia de atalhos desse tipo, desconfie sempre e imediatamente. Perder peso envolve um trabalho multidisciplinar entre nutricionista e educador físico, exige foco e, ainda assim, você pode se deparar com resistências genéticas, insulínicas e de muitas outras naturezas.
Além disso, uma cirurgia bariátrica pode ser necessária, o que já envolve ainda mais médicos nesse tratamento. Por fim, nem todo corpo magro é saudável e o contrário também. Há um fator indissociável nessa dinâmica que é o biotipo de cada pessoa e lutar contra isso meramente por fins estéticos pode ser uma batalha árdua e inútil.
Voltando às tênias, o boato que já existia em fóruns da internet, vídeos sem chancela científica e, claro, no boca a boca, ganhou projeção tempos atrás com o post do oncologista norte americano Bernard Hsu. Ele postou em suas redes sociais que uma paciente sua de apenas 21 anos havia ingerido ovos de tênia em cápsulas, comprados no mercado clandestino.
Ela de fato chegou a emagrecer, afinal, a tênia se alimenta daquilo que seu hospedeiro – no caso, ela -, ingere. Mas, em uma noite, ela viu pedaços escurecidos em suas fezes e pensou que isso pudesse ser efeito direto de alguma mudança que tivesse feito em sua dieta.
Depois desse episódio, ela encontrou um caroço no queixo, o pressionou e desmaiou. Alguns dias depois, episódios intensos de dores de cabeça a levaram ao hospital, onde foi constatado que ela também estava com inchaço e dores no seu abdômen.
Ao final dessa jornada, o diagnóstico: a jovem possuía duas tênias dentro de si, a solium e a saginata, sendo que a segunda causou lesões em seu cérebro, levando-a a sofrer episódios de amnésia recente e acarretando em mais alguns dias no hospital. Foram necessárias três semanas de tratamento para eliminar todos os ovos no cérebro e seis meses para zerar as sequelas desse jogo arriscado.
Se a paciente estivesse com a imunidade baixa, os danos poderiam ser ainda piores e comprometer outros órgãos vitais, como fígado ou pulmão. Sem contar que uma possível disenteria causada pela infecção poderia levá-la a um quadro de desidratação importante.
A neurocisticercose causada pela Taenia Solium, caso que a paciente apresentou, a depender da localização dentro do órgão, poderia desencadear quadros comportamentais e psicóticos. Entre eles: tumores cerebrais, alterações na marcha da pessoa, distúrbios epilépticos ou até obstruir vias de passagem provocando sintomas semelhantes ao Acidente Vascular Cerebral – o AVC. Isso sem contar que a cisticercose ainda pode afetar o olho, causando cegueira ou paralisia ocular, e a espinha, causando paralisia.
A Taenia Saginata, apesar de não ir para o cérebro e ficar instalada sempre no intestino delgado, também pode acarretar problemas. A perda de apetite, que é o que ocasiona o tão almejado emagrecimento, também pode levar a uma anemia, por exemplo, e diminuir os números da balança dessa forma. Mas essa alteração não é definitiva e a pessoa pode sim ter todo esse peso de volta. É uma conta que não fecha e não vale a pena. Pense nisso antes de ceder aos encantos dos atalhos.
