Todos os dias, nos corredores das UPAs, nas filas dos postos, nos plantões lotados à noite e nos posts de redes sociais, a verdade aparece ostensiva e insolente: temos um enorme problema. Há alguns dias, este problema — a qualidade da assistência em saúde prestada pelos profissionais médicos do país — ganhou nome, um tamanho deprimente e uma descrição aterrorizante. Mas o Enamed, novo Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica, não trouxe exatamente um susto. Ele carimbou oficialmente uma fotografia que a prática já vinha revelando com pouca sutileza: há uma fração relevante de formandos saindo da graduação sem dominar o mínimo esperado para exercer medicina com segurança.
A primeira edição (2025) avaliou 351 cursos. O critério central não foi subjetivo, pelo contrário, foi proporção de concluintes considerados proficientes. Importante: proficiente, aqui, não é “excelente”; é “minimamente competente”.
O resultado? Constrangedor, decerto, mas jamais surpreendente:
- Entre os 39.258 concluintes, 67% atingiram proficiência;
- No nível de curso: 24 cursos (7,1%) ficaram no conceito 1 (até 39,9% proficientes) e 83 (23,6%) no conceito 2 (de 40% a 59,9% proficientes). Somados: 107 cursos, 30,4% do total.
Ou seja: a cada 10 turmas de médicos formados no Brasil, cerca de 3 não têm condições mínimas de exercer a Medicina.
Um horror, ninguém tem dúvida, mas, surpresa? Nenhuma.
O Enamed formalizou o problema, mas não o inventou
Quem acompanha a discussão há mais tempo lembra do exame voluntário do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp), aplicado por anos. Ele já desenhava esse mapa com antecedência brutal e com um detalhe que torna tudo ainda mais preocupante: por ser facultativo, havia o risco de maior participação daqueles que se sentissem mais preparados e o próprio Cremesp reconhecia essa possibilidade de viés. O exame abrangeu uma população, portanto, menor e com características um pouco diferentes do que vemos no Enamed, obrigatório em todo o país.
Mesmo assim, os números foram persistentes: de 2005 a 2011, houve anos com mais da metade reprovada (56% em 2007 e 2009; 61% em 2008). Em 2011, 46% reprovaram. Era uma prova de 120 questões, com nota de corte 6.
Ou seja, há duas décadas já existia um termômetro mostrando febre alta. O Enamed apenas ampliou o termômetro para todo o país — e, desta vez, há uma consequência regulatória: cursos com conceito 1 e 2 entram em processo de supervisão com medidas escalonadas (por exemplo, proibição de aumento de vagas, exigência de saneamento, etc.).
A geografia da desigualdade
A fotografia do Enamed também tem relevo geográfico e, no Brasil, geografia quase sempre conversa com desigualdade. Quando se olha a distribuição por região, os melhores desempenhos tendem a se concentrar no Sul e Sudeste, enquanto Norte e Nordeste aparecem com proporções menores de concluintes no patamar mínimo de proficiência e maior concentração de cursos nos conceitos mais baixos. Em outras palavras, o país não está apenas dividido entre cursos bons e ruins; ele está dividido entre regiões com mais e menos condições de formar com qualidade. A solução que havia sido criada para melhorar a distribuição dos profissionais médicos no país pode até ter promovido esse resultado, mas às custas de profissionais com formação de qualidade duvidosa.
E isso importa porque não é uma estatística neutra — ela pode virar disparidade assistencial. O recém-formado com formação mais frágil não desaparece. Ele entra no mercado, frequentemente nas pontas mais expostas do sistema (plantões, pronto-atendimentos, unidades com pouca retaguarda e supervisão), que são, na verdade, bastante exigentes e onde a carência é maior. Se a régua do Enamed desenha um gradiente regional, ela também sugere um risco duro: o de que populações já vulneráveis fiquem mais expostas a cuidado inseguro, erros evitáveis e uso ineficiente de recursos — não por falta de esforço individual, mas por um arranjo estrutural que tolera formar “no limite” exatamente onde o SUS mais precisa de solidez.
Como chegamos aqui? A multiplicação de escolas — e a regulação que nem sempre acompanha
O Brasil viveu, nas últimas décadas, uma expansão agressiva da graduação em medicina, impulsionada por políticas e por mercado. A Lei do Mais Médicos (2013) reorganizou o tema, inclusive prevendo mecanismos específicos de avaliação e reordenamento da formação.
Depois, o MEC retomou e detalhou regras para novos cursos por chamamento público, com critérios de região de saúde, oferta de leitos, infraestrutura e desconcentração (a lógica é: não basta abrir; é preciso haver campo de prática e rede capaz de ensinar).
Ainda assim, o crescimento ocorreu. Há levantamentos de entidades médicas e reportagens baseadas nesses dados indicando que o país chegou a 494 cursos em 2025, com 50.974 vagas anuais, e predominância do setor privado.
A combinação é explosiva: são muitos diplomados em circulação com campo de prática e preceptoria limitados. Ainda há um gargalo que raramente vira capa, mas define a vida real do recém-formado — a residência médica não cresce no mesmo ritmo.
A Demografia Médica (FMUSP/AMB) já chamava atenção para o aumento da defasagem entre egressos e vagas de residência de acesso direto: a diferença saiu de 3.866 vagas (2018) para 11.770 (2021). Mas o problema não é apenas o número de vagas. O filtro da residência é, também, cada vez mais inalcançável para aqueles de formação deficitária.
Ou seja, é como despejar mais carros numa estrada sem ampliar as pistas e depois se espantar com o engarrafamento. Nesse contexto, não surpreende que uma fatia grande do contingente médico seja de generalistas sem título de especialista: em dezembro de 2024, eram 244.141 (40,9%). Pior, que muitos estejam criando especialidades inexistentes, adotando títulos não reconhecidos e, assim, buscando um lugar no mercado para chamar de seu. Quem paga por isso é, como sempre, o paciente.
Para onde vão os egressos com formação insuficiente?
Não podemos demonizar o recém-formado, como algumas “autoridades” insistem em fazer. Estes são vítimas de um sistema que os coloca em posições de alto risco com baixa sustentação e cobra muito, muito caro por isso — moral e financeiramente.
Quando a residência é inalcançável, a porta de entrada do mercado tende a ser a medicina de linha de frente, onde há demanda contínua e rotatividade: plantões de pronto atendimento, urgência/emergência, cobertura de unidades básicas sem supervisão estruturada, empresas terceirizadas, teleatendimento, clínicas populares. Isso é “aproveitamento” no sentido mais cru da palavra: o sistema absorve porque precisa de gente agora, e porque é mais barato ocupar escalas do que construir formação.
O impacto é previsível — e caro:
- para o paciente, na forma de erros evitáveis, atrasos diagnósticos, antibiótico/anti-inflamatório como “muleta”, subvalorização de sinais de gravidade;
- para o SUS e o sistema como um todo, na forma de exames em cascata, encaminhamentos desnecessários, internações que poderiam ter sido evitadas e judicialização;
- para o próprio médico, na forma de burnout precoce, insegurança, prática defensiva, e uma carreira empurrada pela urgência em vez de guiada por aprendizado.
Nada disso aparece com nitidez numa planilha do Enamed. Ainda assim, o exame ajuda a explicar por que o paciente, às vezes, sente que está jogando roleta russa no seu atendimento.
