No Brasil, poucas coisas são tão concretas quanto a dor. Quem já viu um idoso com herpes- zóster, também conhecido como “cobreiro”, sabe do que estou falando: nos dias das crises, tudo é sobre aquela queimação que aparece sem avisar e atravessa o corpo, a pele que não tolera um toque de roupa, o sono que some, a vida que vira do avesso. É o tipo de sofrimento que não cabe bem em gráfico ou audiência pública. Mas foi exatamente esse sofrimento — e o custo de evitá-lo — que entrou no centro de uma decisão aguardada por todos e tomada na última semana.
Em 8 de janeiro de 2026, o Ministério da Saúde publicou a Portaria SCTIE/MS no 3, tornando pública a decisão de não incorporar no SUS a vacina recombinante adjuvada contra herpes-zóster para idosos com 80 anos ou mais e pessoas imunocomprometidas a partir de 18 anos. A notícia correu como sempre: em manchetes indignadas, em discursos ignorantes inflamados e em comentários de surpresa recheados de desesperança. E é compreensível. A expectativa era grande, ampliada por notícias anteriores que pareciam dar como certo um destino mais favorável. O desconforto vem, além disso, do fato de que esta não é uma história de “vacina ruim”. É uma história de conta que não fecha — ao menos nas condições avaliadas e com a metodologia utilizada.
Vamos entender melhor isso tudo.
A CONITEC (a comissão técnica que embasa esse tipo de decisão) é um grupo assessor que deve avaliar as incorporações tecnológicas no SUS com austeridade e sem emocionalismo. Para isso, ela olha para três coisas ao mesmo tempo: benefício clínico, segurança e valor para o dinheiro público. E “valor” aqui não é um juízo moral. É uma tentativa de responder, com método, à pergunta mais difícil de todas num sistema universal: o que eu consigo financiar sem descalçar outros programas do SUS?
No caso do herpes-zóster, o próprio relatório “para a sociedade” reconhece a importância do tema: a doença pesa, especialmente em idosos e imunocomprometidos, e a vacina tem relevância preventiva (sem contar as evidências que se fortalecem a cada dia quanto à prevenção de demências). Ainda assim, a recomendação final foi negativa. Por quê? Porque a avaliação econômica apontou um custo alto para o benefício estimado e, sobretudo, um impacto orçamentário que assusta qualquer gestor. Um adendo aqui: a CONITEC recomenda, não decide nada. Quem decide é a autoridade do Ministério da Saúde, baseada também, é claro, na recomendação feita pela comissão.
O coração técnico dessa discussão tem um nome feio — ICER — e um conceito ainda mais difícil de engolir quando falamos de velhice. Explico. O ICER é a “etiqueta de preço” do ganho em saúde: informa quanto custa, a mais, trocar o cenário atual por uma nova intervenção e ganhar uma unidade adicional de benefício. No modelo analisado pela CONITEC, a vacina teve custo incremental de R$ 796,21 por pessoa e um ganho incremental de 0,00405 QALY, o que gerou um ICER de R$ 196.384,84 por QALY. Este valor é muito acima do referencial de R$ 40.000 por QALY usado pela comissão na avaliação para doenças infecciosas.
Mas o que é esse tal de QALY que decide o destino de uma vacina? QALY é uma medida que mistura tempo de vida e qualidade de vida. É como se o sistema tentasse responder: quantos anos de boa saúde a intervenção compra? Funciona razoavelmente bem em muitas situações. O problema é que, ao entrar na casa dos 80, 85, 90 anos, a matemática fica cruel. A própria CONITEC admite isso em texto claro: modelos que usam QALY ou anos de vida ganhos “possuem pior desempenho em idosos” porque “a expectativa de vida é pequena”, embora os estados de saúde (dor aguda, neuralgia pós-herpética e complicações) tenham alto impacto na qualidade de vida e a vacina seja eficaz.
Em português castiço: quando você tem menos tempo pela frente, há menos “espaço” para o modelo capturar o benefício acumulado — mesmo que o benefício seja enorme no cotidiano. E essa limitação da metodologia é cruel. Evitar meses de dor lancinante pode ser decisivo para alguém de 82 anos; mas, na planilha do QALY, esse ganho pode virar uma fração pequena, e o resultado é um ICER alto. Não é que a vida do idoso valha menos. É que a régua que usamos para medir “valor” pode ser mais dura com intervenções cujo mérito maior é evitar sofrimento numa fase de vida em que o tempo é curto.
Aí entra a segunda perna da decisão: o orçamento. O relatório com decisão final resume um cenário de oferta de 1,5 milhão de pessoas vacinadas por ano (por limite de doses informado), chegando a um investimento acumulado de R$ 5,2 bilhões em cinco anos – e conclui: “dessa forma, a vacina foi considerada não custo-efetiva”. Não é pouca coisa. Em saúde pública, bilhões não são apenas números: são leitos, exames, equipes, outras vacinas, medicações, ambulâncias, cirurgias, filas que andam (ou não)… A CONITEC ainda registra algo que é quase um recado: para a vacina caber, “considerações adicionais sobre a oferta de preço precisam ser negociadas” para alcançar impacto “sustentável” para o SUS.
E isso nos leva ao ponto mais importante e menos polarizador desse debate (talvez, por isso, menos interessante para muitos atores atuais, exploradores das dificuldades políticas que um país como o nosso atravessa, ainda mais em um ano eleitoral): decisões assim não são necessariamente finais. A própria portaria é um marco administrativo; a discussão técnica pode voltar se houver “fatos novos”: preço diferente, proposta diferente, nova estratégia.
Nosso trabalho agora deve ser exatamente esse: achar novas estratégias. Aliás, o SUS já viveu reviravoltas com cara parecida.
Uma delas foi o emicizumabe, na hemofilia A: tecnologia de alto custo, forte demanda social, e um processo em que o desfecho final passou por desenho de indicação e decisão formal de incorporação em portaria (a própria documentação da CONITEC registra a Portaria SCTIE/MS no 94 como decisão de incorporar em determinado recorte).
Outro exemplo emblemático é a hepatite C. Em 2015, o Ministério da Saúde incorporou ao SUS os antivirais de ação direta sofosbuvir, daclatasvir e simeprevir por portaria. Aquilo só se tornou viável porque o país tratou preço e escala como política pública: houve estratégia regional de compra/negociação e o próprio Ministério registrou economia expressiva em compra conjunta no Mercosul, com meta de atingir preços muito inferiores aos praticados em outros mercados.
Essas histórias não são garantias de que o herpes-zóster entrará no PNI amanhã, mas lembram algo essencial: quando a barreira é custo e impacto orçamentário, e não falta de eficácia, é possível achar um outro caminho. Ele costuma envolver negociação de preço, faseamento, priorização por risco e dados de mundo real que melhorem a estimativa de benefícios e custos evitados no SUS.
Talvez seja aí que o debate precise amadurecer. Em vez de um duelo entre “insensibilidade” e “responsabilidade fiscal”, a conversa poderia ser: ok, qual seria um preço aceitável? Qual recorte populacional gera mais benefício por dose? Deveríamos reavaliar a população-alvo? Como garantir segunda dose e adesão em uma população que sofre crescente influência do movimento anti-vacina? Que metodologia captura melhor o valor de evitar dor persistente? Porque, se por um lado a régua do QALY pode subestimar o drama da velhice, por outro, o orçamento do SUS também é uma forma de ética: ele diz, todos os dias, quantas dores conseguimos evitar — e quantas ainda ficam sem resposta.
