Embora a reposição de testosterona seja muito importante quando indicada, o uso do hormônio tem crescido sem critério entre homens e mulheres. Dosagem inadequada e ausência de acompanhamento médico — geralmente associadas a critérios estéticos — preocupam entidades médicas. A principal indicação, afinal, está relacionada à saúde.
Conhecida como Deficiência Androgênica do Envelhecimento Masculino (DAEM), a queda da testosterona — também chamada de andropausa — atinge de 15% a 20% dos homens acima dos 50 anos. A reposição hormonal, porém, é indicada apenas para casos específicos e não deve ser realizada quando os níveis do hormônio estiverem normais.
No caso das mulheres, a única indicação cientificamente reconhecida para o uso terapêutico de testosterona é o tratamento do Transtorno do Desejo Sexual Hipoativo (TDSH) na pós-menopausa, após diagnóstico clínico criterioso e por exclusão. Conforme a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), não existe no Brasil formulação de testosterona aprovada para uso feminino.
A Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), a Febrasgo e a Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) publicaram, no ano passado, nota conjunta restringindo o uso de testosterona em mulheres.
Onde mora o risco?
Tanto homens quanto mulheres têm utilizado a testosterona e seus derivados com finalidade estética, em razão de sua ação anabólica. A estratégia é capaz de induzir ganho de massa magra e força muscular, além de redução da massa gordurosa. Na prática, porém, os riscos são significativos — tanto que a prescrição médica de terapias hormonais com finalidades estéticas é proibida no Brasil pelo Conselho Federal de Medicina (CFM).
Entre os problemas do uso indiscriminado, sem orientação médica, estão:
- Aumento do risco de trombose, infarto do miocárdio e AVC;
- Alteração dos níveis de colesterol e triglicerídeos;
- Elevação do risco de diabetes, doença coronariana e infertilidade.
Nas mulheres, conforme a nota conjunta das entidades, as consequências são diversas. O documento aponta que o uso de testosterona fora da única indicação reconhecida aumenta o risco de eventos adversos, entre eles efeitos virilizantes (acne, queda de cabelo, crescimento de pelos, aumento do clitóris e engrossamento irreversível da voz), toxicidade e tumores hepáticos, alterações psicológicas e psiquiátricas, infertilidade e potenciais repercussões cardiovasculares — como hipertensão arterial, arritmias, embolias, tromboses, infarto, AVC e aumento da mortalidade —, além de alterações em exames laboratoriais de colesterol e triglicerídeos.
Conforme o mesmo documento, não existe respaldo científico para o uso de testosterona com fins estéticos, para aumento de massa magra, emagrecimento, melhora de disposição ou efeitos antienvelhecimento. A Resolução CFM nº 2.333/2023, que estabelece normas éticas para a prescrição de terapias hormonais, é igualmente clara: é vedada a utilização de qualquer formulação de testosterona sem comprovação diagnóstica de sua deficiência, por falta de evidência científica. Em caso de dúvidas, consulte sempre um médico para avaliar seu caso e analisar outras alternativas.
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Referências:
https://crmpb.org.br/artigos/os-riscos-do-uso-de-testosterona-com-finalidade-estetica
https://www.endocrino.org.br/media/nota_de_esclarecimento_abuso_testosterona_defa_sbem_(1).pdf
https://sistemas.cfm.org.br/normas/visualizar/resolucoes/BR/2023/2333
