As Américas, primeira região a eliminar o sarampo duas vezes, perderam o status de território livre da transmissão endêmica da doença ainda em 2025. Agora, com o aumento dos casos nos Estados Unidos, o país também corre o risco de viver o mesmo retrocesso.
No ano passado, mais de 2.267 casos de sarampo foram registrados nos EUA, segundo o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC, na sigla em inglês). Até 29 de janeiro de 2026, foram relatados 588 casos confirmados. Do total de situações do ano, 585 casos foram relatados por 17 jurisdições e três são de visitantes internacionais.
Esses dados reforçam duas verdades fundamentais: o sarampo é especialmente perigoso para crianças pequenas, e a vacinação é a principal ferramenta de prevenção. A falta de campanhas de imunização e o avanço de fake news sobre vacinas ajudam a explicar o cenário atual.
Situação no Brasil
O Ministério da Saúde confirmou o primeiro caso de sarampo em 2026 no país neste mês de março. A paciente é uma bebê de 6 meses, de São Paulo, que viajou à Bolívia. Em novembro de 2024, o Brasil chegou a receber da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas/OMS) a recertificação como país livre do sarampo — título que havia perdido em 2019, após um surto com 20 mil casos, causado principalmente pela baixa cobertura vacinal.
Tanto o governo de Jair Bolsonaro (2019–2022), no Brasil, quanto o atual governo de Donald Trump, nos Estados Unidos, têm em comum o desmonte de políticas públicas de saúde e o incentivo ao descrédito da ciência.
Em 2024, o Brasil conseguiu ampliar sua cobertura vacinal contra o sarampo. A vacina tríplice viral (que também protege contra caxumba e rubéola) atingiu 95,22% de cobertura na primeira dose e 79,73% na segunda, segundo o Ministério da Saúde. Em 2022, esses números eram de 80,7% e 57,64%, respectivamente.
Como resultado, em 2025, o país notificou 38 casos confirmados, distribuídos no Distrito Federal, Rio de Janeiro, São Paulo, Rio Grande do Sul, Tocantins (com 25 afetados), Maranhão e Mato Grosso, e nenhuma morte. Em 2024, foram cinco casos confirmados, quatro deles importados. Todos foram considerados esporádicos e sem indícios de endemia. A lição é clara: a vacina funciona.
O que é o sarampo?
O sarampo é uma das doenças mais contagiosas do mundo, já tendo sido causa importante de mortalidade infantil global. Transmitido pelo ar, o vírus se espalha por gotículas expelidas ao tossir, espirrar, falar ou até respirar. Uma pessoa infectada pode transmitir o vírus para até 18 não vacinadas. Para comparação, a covid-19, no auge, apresentava uma taxa de transmissão de cerca de 3,8.
O vírus do sarampo é exclusivo dos humanos, o que o torna um bom indicador da fragilidade da cobertura vacinal em uma região. Além dos EUA, surtos têm sido registrados também na África e Europa, gerando preocupação com a disseminação internacional.
Sintomas do sarampo
Após o contágio, o vírus permanece incubado por 6 a 21 dias. Os sintomas iniciais incluem:
- Tosse seca;
- Coriza;
- Conjuntivite;
- Febre alta (até 40 °C);
- Falta de apetite.
Entre o terceiro e o quinto dia de sintomas, surgem as chamadas manchas de Koplik — pequenas lesões esbranquiçadas no interior da boca — que precedem o exantema: as manchas vermelhas que se espalham da face para o corpo.
Essas manchas duram cerca de 48 horas de forma intensa, podendo depois escurecer e descamar. Se a febre retornar ou se agravar nesse período, é sinal de possíveis complicações.
A transmissão pode começar até cinco dias antes da erupção cutânea e durar até quatro dias depois, o que favorece a propagação do vírus, já que muitos infectados não são isolados logo no início dos sintomas.
Complicações do sarampo
Embora a maioria dos casos seja benigna, o sarampo pode provocar imunossupressão temporária, facilitando infecções secundárias. As complicações mais comuns incluem:
- Pneumonia viral (pneumonite);
- Encefalite (inflamação cerebral);
- Otite média (infecção de ouvido);
- Diarreia grave;
- Pneumonia bacteriana secundária;
- Lesões na córnea, que podem levar à perda de visão;
- Panencefalite esclerosante subaguda (complicação neurológica rara que acontece no adulto, de caráter progressivo e incurável, levando a óbito em poucos meses).
Diante de sintomas suspeitos, exames laboratoriais como PCR e sorologia são essenciais para confirmar o diagnóstico, especialmente porque outras doenças, como rubéola, dengue e gripes, apresentam sintomas que podem provocar confusão na avaliação clínica isolada.
A importância da vacinação
No Brasil, o sarampo é de notificação compulsória. A vacina tríplice viral, distribuída gratuitamente pelo SUS, é segura e altamente eficaz. Ela contém vírus vivos atenuados, que estimulam o sistema imunológico a criar defesas duradouras. Para ampliar esse cuidado, o Ministério da Saúde tem promovido sucessivos dias D de vacinação pelo país.
Embora a vacina não impeça totalmente a infecção, ela reduz drasticamente a gravidade do quadro. A única contraindicação é para pessoas com imunossupressão grave — e por isso é tão importante a chamada imunidade de rebanho, que protege os mais vulneráveis indiretamente quando mais de 85% da população está imunizada.
O Programa Nacional de Imunizações (PNI) recomenda:
- Crianças: duas doses — aos 12 e 15 meses;
- Adolescentes e adultos até 29 anos: duas doses com intervalo de 30 dias;
- Adultos de 30 a 59 anos: uma dose única;
- Situações de surto: avaliação de vacinação para crianças entre 6 e 12 meses e adultos acima de 59 anos.
A vacina está disponível na Unidade Básica de Saúde (UBS) mais próxima e, quando administrada corretamente, protege por toda a vida. É uma atitude individual com efeito coletivo: quanto mais pessoas se vacinarem, maior a proteção para todos.
Referências:
https://www.cdc.gov/measles/data-research/index.html
https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/s/sarampo/situacao-epidemiologica
