Quem já sentiu na pele a dor da herpes-zóster sabe a importância da vacinação. Estudos recentes, porém, sugerem que o imunizante pode ir além: além de prevenir a doença, reduzir em até 20% o risco de demência — especialmente entre mulheres. Mas como isso seria possível?
Relação entre herpes-zóster e demência
O vírus varicela-zóster é o mesmo que causa a catapora. Por isso, todo mundo que já teve a doença, muitas vezes na infância, fica com o vírus adormecido nas células nervosas por toda a vida. Segundo um estudo publicado na revista Nature, quando esse vírus é reativado, ele causa muito além de lesões na pele, mas também danos no sistema nervoso capazes de contribuir para o desenvolvimento de demência.
Conforme o artigo publicado em 2025, as reativações levam ao comprometimento cognitivo de longa duração por meio de vasculopatia, problemas nos vasos sanguíneos, neuroinflamação e acúmulo de amiloide e proteínas tau, dois dos sinais clássicos da doença de Alzheimer. Somados, esses fatores podem enfraquecer o cérebro ao longo dos anos.
Se uma pessoa que recebe a vacina contra a herpes-zóster previne a reativação do vírus no corpo, consequentemente também estaria protegida do risco de desenvolvimento de demência, de acordo com o estudo. Para chegar neste resultado, os pesquisadores realizaram um experimento com a população do País de Gales.
Por lá, nascidos antes de 2 de setembro de 1933 eram inelegíveis a receber a vacina, enquanto aqueles nascidos após a data podiam se imunizar. Com isso, os estudiosos conseguiram comparar pessoas muito próximas em idade, em que a única diferença prática era se podiam ou não tomar a vacina.
Entre os imunizados, a vacina reduziu o risco de demência em 3,5 pontos percentuais, o equivalente a uma queda proporcional de 20% em relação ao risco original, com efeito mais forte entre mulheres do que homens. Segundo os pesquisadores, “o estudo fornece evidências de um efeito preventivo ou retardador da demência pela vacinação.”
Estudo nos Estados Unidos reforça a indicação
Também disponível na revista Nature, o artigo “Varicella-zoster virus reactivation and the risk of dementia”, publicado em outubro de 2025, meio ano após o primeiro, do País de Gales, aponta resultados semelhantes. Os pesquisadores apontam que, quanto mais reativações do vírus, maior a chance de desenvolver demência.
De acordo com esse novo estudo, a imunização foi associada a “um aumento de 17% no tempo livre de demência durante os seis anos subsequentes à exposição e a um risco substancialmente menor de demência em comparação com as vacinas de controle contra influenza e tétano-difteria-coqueluche.”
Essa pesquisa considerou mais de 100 milhões de indivíduos nos Estados Unidos, enquanto a do País de Gales analisou mais de 282 mil pessoas. Com métodos e locais diferentes, os estudos apontam para o mesmo cenário: a vacinação contra herpes-zóster pode ser contribuir para a prevenção de demência.
Quem pode se vacinar?
A vacina contra herpes-zóster ainda não está disponível de forma ampla pelo SUS. Há uma proposta em avaliação para oferecê-la a idosos a partir de 80 anos e a pessoas imunocomprometidas acima de 18 anos, mas a incorporação ainda não foi concluída. Enquanto isso, a vacina segue disponível na rede privada, onde é indicada para pessoas a partir dos 50 anos e para adultos imunocomprometidos ou com maior risco de desenvolver a doença.
O que é herpes-zóster?
Também chamado de cobreiro, o herpes-zóster é causado pela reativação do vírus da catapora. Junto com lesões cutâneas e dores nevrálgicas (nos nervos), podem surgir sintomas como febre, dor de cabeça, mal-estar, coceira, ardor e sensação de formigamento e agulhadas. A doença é transmitida por meio de contato direto ou de secreções respiratórias.
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Referências:
https://www.nature.com/articles/s41586-025-08800-x
https://www.nature.com/articles/s41591-025-03972-5
https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/h/herpes
