Colesterol: por que o monitoramento deve começar na infância?

Novas recomendações das sociedades de cardiologia dos EUA focam na identificação e no controle precoce do problema

Luiza Adorna
Publicado em 23/04/2026 - 18:00

As doenças cardiovasculares causam a morte de 400 mil brasileiros todo ano, conforme a Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC). Uma delas é a aterosclerose, doença inflamatória crônica causada pelo acúmulo de placas de gordura e colesterol nas paredes das artérias. Nos Estados Unidos, o cenário é similar. Diante disso, a Associação Americana do Coração (AHA) e o Colégio Americano de Cardiologia (ACC) atualizaram as diretrizes para o controle do colesterol, agora voltadas à prevenção desde a infância

Em 2025,  a SBC também divulgou novas diretrizes nessa linha, mostrando que os estudos, em diferentes locais do mundo, levam para o mesmo caminho: na identificação e no controle precoce do problema. A recomendação das sociedades de cardiologia é o rastreio de colesterol em crianças entre 9 e 11 anos para intervir precocemente, especialmente em casos de hipercolesterolemia familiar. Mas, calma: isso não significa começar a medicar crianças maciçamente. Vamos entender melhor.

As recomendações americanas e brasileiras estão alinhadas porque o problema ultrapassa barreiras geográficas. De acordo com o ACC, estima-se que 1 em cada 4 adultos nos EUA apresente níveis elevados de colesterol LDL, chamado de colesterol ‘ruim‘, o que aumenta o risco de ataque cardíaco e acidente vascular cerebral. Por isso, um dos principais focos da diretriz é a intervenção precoce por meio de mudanças saudáveis ​​no estilo de vida, especialmente naquelas famílias com história de altos níveis de colesterol.

Entre os cuidados, que valem desde a infância, citam manter um peso saudável, praticar atividade física regularmente, evitar o uso de tabaco e vape, priorizar hábitos de sono saudáveis ​​e tomar medicamentos para baixar o colesterol quando recomendados por um profissional de saúde. Além disso, a diretriz reforça as metas de redução do LDL-C e a porcentagem de redução com base no risco, a fim de diminuir a exposição ao longo da vida a lipídios prejudiciais.

Outro ponto defendido pelas entidades norte-americanas é o uso de uma nova ferramenta, a PREVENT. Diferente de outras calculadoras, capazes de estimativas de até 10 anos, esta estima o risco de doenças cardiovasculares em até 30 anos. As equações consideram novos fatores de risco, como excesso de peso, obesidade e doença renal crônica, assim como a probabilidade de o paciente desenvolver insuficiência cardíaca.

A nova diretriz recomenda ainda a consideração de exames adicionais, quando apropriado, para aprimorar a avaliação do risco cardiovascular e verificar se é necessário intensificar a redução do LDL-C e o controle de outros fatores de risco. Esses exames incluem:

  • Uso seletivo de uma tomografia computadorizada de cálcio nas artérias coronárias (CAC) sem contraste: pode ser usado para verificar o acúmulo precoce ou subclínico de cálcio e placas nas paredes das artérias do coração quando ainda houver incerteza sobre o risco real de uma pessoa. É recomendado para homens com 40 anos ou mais e mulheres com 45 anos ou mais com risco limítrofe ou intermediário de infarto ou acidente vascular cerebral (AVC) em 10 anos.
  • Lipoproteína (a): a Lp(a) deve ser medida pelo menos uma vez na idade adulta. Os níveis de Lp(a) são em grande parte determinados geneticamente e permanecem relativamente estáveis ​​ao longo da vida. Níveis elevados de Lp(a)  estão associados a um aumento de aproximadamente 1,4 vezes no risco de infarto ou acidente vascular cerebral a longo prazo. 
  • Apolipoproteína B: a medição da apoB pode ser usada para avaliar qualquer risco residual de doença cardiovascular aterosclerótica e orientar o tratamento em pessoas com síndrome cardiovascular-renal-metabólica, diabetes tipo 2, triglicerídeos elevados ou doença cardiovascular conhecida. 

O que tudo isso representa?

Na prática, a atualização deve ampliar o rastreamento precoce e incentivar intervenções antes mesmo do surgimento de sintomas. De acordo com o documento sobre as novas diretrizes da Associação Americana do Coração (AHA) e do Colégio Americano de Cardiologia (ACC), níveis elevados de colesterol tendem a persistir ao longo da vida. “Níveis significativamente elevados de colesterol persistem da infância à idade adulta, estão associados à aterosclerose subclínica na infância  e predizem o risco de eventos cardiovasculares fatais e não fatais na meia-idade”, diz o texto. 

O documento sugere que crianças com colesterol alto, principalmente genético, devem ser tratadas cedo, primeiro com mudança no estilo de vida e, se necessário, até com medicamentos. Roger Blumenthal, presidente do comitê de elaboração das diretrizes e diretor do Centro Ciccarone para a Prevenção de Doenças Cardíacas da Johns Hopkins, destaca em entrevista ao Colégio Americano de Cardiologia:

“Embora desejemos otimizar hábitos de vida saudáveis ​​como primeiro passo para reduzir o colesterol, sabemos que, se os níveis de lipídios não estiverem dentro da faixa desejável após um período de otimização do estilo de vida, devemos considerar a adição de medicamentos para redução de lipídios mais cedo do que faríamos há 10 anos. E manter o colesterol LDL baixo por mais tempo, assim como manter a pressão arterial baixa por mais tempo, resulta em uma proteção muito maior contra o risco futuro de ataque cardíaco e derrame.”

A nova diretriz foi desenvolvida em colaboração com a Associação Americana de Reabilitação Cardiovascular e Pulmonar, a Associação de Cardiologistas Negros, o Colégio Americano de Medicina Preventiva, a Associação Americana de Diabetes, a Sociedade Americana de Geriatria, a Associação Americana de Farmacêuticos, a Sociedade Americana de Cardiologia Preventiva, a Associação Nacional de Lipídios e a Associação de Enfermeiros de Cardiologia Preventiva. Um trabalho conjunto com a intenção de agir precocemente para evitar problemas graves no futuro. 

Leia mais: Como as novas drogas estão transformando o tratamento da obesidade

Referências:

https://www.jacc.org/doi/epdf/10.1016/j.jacc.2025.11.016

https://abccardiol.org/en/article/brazilian-guideline-on-dyslipidemias-and-prevention-of-atherosclerosis-2025/

https://agenciabrasil.ebc.com.br/saude/noticia/2024-09/doencas-cardiovasculares-matam-400-mil-brasileiros-por-ano

https://www.acc.org/about-acc/press-releases/2026/03/13/18/01/accaha-issue-updated-guideline-for-managing-lipids-cholesterol