AVC em jovens: saiba como reconhecer os sinais de alerta

AVCs também acometem pessoas com menos de 50 anos. Entenda os sinais, os fatores de risco e como a prevenção pode salvar vidas
Gabriela Monteiro
Publicado em 09/02/2026 - 15:00

O fluxo sanguíneo é essencial para o bom funcionamento do corpo. Quando esse sistema enfrenta uma obstrução ou ruptura, pode ocorrer o Acidente Vascular Cerebral (AVC), conhecido também como derrame. O AVC pode ser isquêmico, quando há obstrução de um vaso sanguíneo — responsável por cerca de 80% dos casos — ou hemorrágico, quando há ruptura de um vaso cerebral, causando sangramento.

Apesar de ser mais comum em idosos, o AVC também pode atingir jovens com menos de 50 anos, faixa etária usada como referência pela Sociedade Brasileira de AVC. Um estudo holandês publicado na revista Neurology em 2019,avaliou a epidemiologia da doença quanto ao subtipo de AVC, sexo, idade e tendências temporais. A pesquisa mostrou que a incidência do derrame cresce a partir dos 35 anos de idade. 

Mas embora 56% dos casos de AVC aconteçam com pessoas de 44 a 49 anos naquele país, 38% deles acometem indivíduos entre 18 a 24 anos de idade e. Já outro estudo de 2022 publicado na revista Stroke estimou que, por ano, cerca de 2 milhões de pessoas entre 18 e 50 anos sofrem AVC em todo o mundo. Isso representa 15% do total de casos globais. Ou seja: a ideia de que a juventude é uma protetora insuperável dos pacientes está bastante distante da realidade.

No Brasil, os números também preocupam: em 2024, as doenças cardiovasculares foram a principal causa de morte, com 237.213 óbitos. Os AVCs, exemplo mais letal desse grupo, lideraram esse ranking, com 63.533 mortes — mais do que o infarto agudo do miocárdio (56.096) e a insuficiência cardíaca (20.692).

Fatores de risco para o AVC

O AVC não surge do nada: há sinais prévios e fatores de risco bem estabelecidos, que podem se acumular com a idade. Entre os principais estão:

  • Doenças crônicas: diabetes, hipertensão, obesidade, apneia do sono e problemas cardíacos ou vasculares;
  • Hábitos de vida prejudiciais: sedentarismo, tabagismo, consumo excessivo de álcool, uso de drogas (como a cocaína) e estresse crônico;
  • Questões hormonais: em mulheres, o uso de anticoncepcionais pode aumentar o risco, especialmente se houver predisposição genética;
  • Outros fatores: histórico familiar, malformações anatômicas, alergias graves, poluição do ar e doenças como anemia falciforme, doença de Chagas ou distúrbios genéticos.

Estudos também mostram maior incidência de AVC em homens e em pessoas negras, grupos que merecem atenção especial na prevenção.

Por que os casos em jovens estão aumentando?

Além do aumento dos fatores de risco entre os mais jovens, como o sedentarismo, o estresse e o tabagismo, a evolução da medicina tem contribuído para um maior número de diagnósticos, evitando que muitos casos passem despercebidos.

De acordo com dados da Rede Brasil AVC, ONG criada com a finalidade de melhorar a assistência global ao paciente, cerca de 18% da incidência de AVC afeta a faixa etária de 18 a 45 anos. Segundo eles, os sintomas nessa população são frequentemente confundidos com outras doenças menos graves, como enxaquecas. 

Sinais de alerta: conheça os sintomas do AVC

Saber identificar os primeiros sinais de um AVC é fundamental para buscar ajuda médica rapidamente. Os sintomas que merecem atenção incluem:

  • Fraqueza ou dormência no rosto, braço ou perna, principalmente de um lado só do corpo;
  • Alterações na visão, como visão turva, perda visual em um olho, visão dupla ou sensação de sombra;
  • Dificuldades para falar, entender o que os outros dizem, andar ou engolir;
  • Tontura repentina, desequilíbrio e quedas sem explicação;
  • Dor de cabeça intensa e persistente, sem causa aparente.

Esses sinais são considerados emergência médica e devem ser tratados com urgência.

Desafios no diagnóstico precoce

O diagnóstico precoce em jovens é um desafio. Muitos pacientes ignoram os sintomas ou os confundem com problemas mais simples, como cansaço, estresse ou enxaqueca.

Um estudo publicado no Journal of Stroke and Cerebrovascular Diseases analisou 57 jovens com AVC isquêmico agudo em um centro médico nos Estados Unidos. Oito foram diagnosticados incorretamente e sete receberam alta sem critérios claros — o que mostra que é preciso maior atenção aos sinais, tanto por parte dos pacientes quanto dos profissionais de saúde.

Tratamento e reabilitação

Após o diagnóstico, o tratamento é iniciado o quanto antes, podendo envolver medicamentos trombolíticos, cirurgia e monitoramento hospitalar intensivo. A reabilitação varia conforme as sequelas e pode incluir:

  • Fisioterapia motora e neurológica;
  • Fonoaudiologia (fala e deglutição);
  • Terapias para reequilíbrio emocional e psicológico;
  • Estimulação cognitiva e reabilitação profissional.

O cérebro possui neuroplasticidade, ou seja, a capacidade de criar novas conexões. Isso permite que, com apoio especializado, muitos jovens consigam amenizar os danos sofridos e retomar suas vidas pessoais e profissionais.

Vacinas e AVC: não caia em fake news

É importante reforçar: não há qualquer relação comprovada entre vacinas e AVC. Durante a pandemia de covid-19, surgiram fake news sobre esse tema, mas a ciência mostrou que o aumento de estresse, o isolamento, o tabagismo, o etilismo, os maus hábitos alimentares e o sedentarismo foram os verdadeiros vilões. Vacinas são seguras e salvam vidas.

Prevenir é o melhor caminho

Manter hábitos saudáveis, fazer check-ups anuais e conhecer o histórico familiar são atitudes fundamentais para prevenir o AVC ou evitar sequelas graves. Quanto mais cedo forem reconhecidos os sintomas, maiores as chances de recuperação. Por isso, se algo parecer errado, não hesite: vá ao pronto-socorro. Cada segundo conta.